Expedição Calyptura

Esquecimento é também uma forma de extinção.

Brasil tem 165 espécies ameaçadas
O Brasil está entre os países com maior riqueza de espécies do mundo, com destaque para o notável número de espécies de aves. No entanto, além desse verdadeiro tesouro natural ser desconhecido da maioria das pessoas, a perda cada vez mais acelerada das espécies através da extinção também passa desapercebida. Assim, além de um dos líderes em número de espécies existentes, nosso país é incontestavelmente o líder mundial em espécies de aves ameaçadas de extinção, com um total impressionante de 165 espécies listadas em alguma categoria de preocupação com sua sobrevivência. Dessas, um número significativo de 23 espécies encontram-se classificadas como criticamente ameaçadas, ou “sofrendo um risco extremamente alto de serem extintas na natureza”.
Grafico especies ameaçadas

Gráfico das aves ameaçadas e criticamente ameaçadas de extinção no Brasil. Fonte: ICMBio (www.icmbio.gov.br)

Para maioria destas aves a perda e destruição do hábitat são as principais ameaças. A criação de áreas protegidas visando resguardar os últimos refúgios onde habitam essas espécies com populações naturais muito pequenas é uma das ações básicas capazes de ajudar a evitar sua extinção. Para algumas espécies, no entanto, existe uma ameaça adicional: o desconhecimento. Algumas espécies são tão raras, e foram avistadas ou registradas pela última vez há tanto tempo, que sequer sabemos se ainda existem exemplares vivos ou se já estão extintas.

A Calyptura cristata é uma das aves mais raras

Espécimes de Calyptura cristata em museu.

O último registro foi em 1996
O tietê-de-coroa (Calyptura cristata) é uma dessas espécies. De tamanho pequeno, medindo não mais que 8 cm, com coloração predominantemente amarela e uma crista vermelho-alaranjada, quase nada se sabe sobre sua distribuição original, hábitos, ou biologia. Os poucos registros datam, em sua grande maioria, do século XIX, e indicam que a espécie é (ou era) endêmica de um trecho de floresta atlântica do sudeste, no Estado do Rio de Janeiro, em uma das áreas mais alteradas pela exploração do café. Seu último registro, único no Século XX, resulta de sua observação por um grupo de ornitólogos, em 1996 na Serra dos Órgãos, RJ. Fazem portanto 20 anos que esta, que pode ser considerada uma das aves mais enigmáticas e raras do planeta, foi vista pela última vez.

Expedição Calyptura

Quinze dias que podem mudar o mundo
A partir da análise de informações sobre os locais de coleta dos espécimes taxidermizados (empalhados) espalhados por museus ao redor do mundo, os pesquisadores do Observatório de Aves – Instituto Butantan identificaram que os remanescentes de florestas que ainda existem na região Centro Fluminense, localizada entre a vertente interiorana da Serra do Mar e o Rio Paraíba do Sul, seriam o local mais provável de ocorrência do tietê-de-coroa.
Mapa da áreas de buscas da Calyptura cristata. Em azul a área total de possíveis localizações e em branco área de maior esforço de buscas.

Mapa da áreas de buscas da Calyptura cristata. Em azul a área total de possíveis localizações e em branco área de maior esforço de buscas.

Assim, com o apoio da American Bird Conservancy (ABC) e do Instituto Estadual do Ambiente do Rio de Janeiro (INEA) montamos uma expedição que durante 15 dias deverá dedicar-se à busca da espécie. A região que será coberta pela expedição é uma das menos visitadas pelo ornitólogos e observadores de aves no Estado do Rio de Janeiro, o que aumenta a esperança que os últimos representantes da espécies estejam esperando para serem redescobertos.
Durante a expedição, a equipe enviará para o portal eBird listas com todas as aves que forem registradas durante a busca pela Calyptura. Você também pode acompanhar o que o time está registrando, através das últimas listas enviadas na página do perfil de Luciano Lima.
Mesmo que as chances de encontrar um ou mais representantes desta bela e enigmática espécie sejam pequenas, o objetivo da expedição vai além da busca por si só: nosso objetivo é também chamar atenção para a dramática situação em que se encontram as espécies de aves ameaçadas brasileiras. Assim, podemos fazer com que a sociedade não se esqueça do que estamos perdendo, ao não considerar como prioritária a a manutenção da biodiversidade que nos cerca. A expedição ocorrerá entre os dias 10 e 22 de outubro, logo após o Avistar Rio.