Borboletas

      A modificação rápida da natureza pelo homem, juntamente com nossa tendência também crescente de habitar grandes cidades, tem feito com que os ambientes naturais sejam cada vez mais modificados e divididos em pequenas partes isoladas. Junto com isso, e em grande parte como consequência, à medida em que modificamos a natureza a nossa volta perdemos também de forma rápida um grande número de animais e plantas que compõem nossa biodiversidade. Em meio a este cenário, os parques e jardins de nossas cidades adquirem uma nova importância, permitindo a sobrevivência de algumas das populações que viviam ali. Por outro lado, como são pequenos e isolados, longe do contato com outras áreas verdes, estes parques urbanos são também mais frágeis e suscetíveis a perturbações.
A borboleta-caixão-de-defunto (Heraclides thoas brasiliensis) é grande e muito bonita, mas exala um cheiro ruim. Se alimenta do néctar de flores como cambará e hibisco. Imagem: Denis Mello

A borboleta-caixão-de-defunto (Heraclides thoas brasiliensis) é grande e muito bonita, mas exala um cheiro ruim. Se alimenta do néctar de flores como cambará e hibisco. Imagem: Denis Mello

     As borboletas, insetos da Ordem Lepidoptera, são consideradas um grupo bioindicador, já que o conjunto de espécies presentes em um local pode indicar a qualidade do ambiente. Isso acontece porque se reproduzem rapidamente,respondendo a mudanças no clima e na vegetação.
As borboletas da família Lycaenidae, como esta Ministrymon azia, são muito parecidas entre si. Não são muito comuns em parques urbanos, e possuem uma ótima camuflagem resultante de manchas pigmentadas na parte traseira das asas, formando um desenho parecido com olhos de borboleta. Também possuem uma estrutura parecida com antenas nesta mesma região, enganando assim seus predadores. Imagem: Denis Mello

As borboletas da família Lycaenidae, como esta Ministrymon azia, são muito parecidas entre si. Não são muito comuns em parques urbanos, e possuem uma ótima camuflagem resultante de manchas pigmentadas na parte traseira das asas, formando um desenho parecido com olhos de borboleta. Também possuem uma estrutura parecida com antenas nesta mesma região, enganando assim seus predadores. Imagem: Denis Mello

     São também comumente vistas durante o dia, bastante comuns e abundantes o ano inteiro, e suas espécies são relativamente bem conhecidas e fáceis de identificar. São também parte de muitas interações ecológicas, como polinizadores e comopresas, e como herbívoros que convertem a biomassa vegetal para torná-la disponível para os demais níveis tróficos. Por causa destes fatores, o acompanhamento constante das borboletas através de seu monitoramento em em áreas urbanas é usado para perceber mudanças nos padrões temporais, e como estas mudanças podem estar associadas a outros fatores do ambiente.
A estaladeira (Hamadryas epinome) emite estalos durante seu vôo e pousa de asas abertas e de cabeça para baixo em troncos de árvores, onde fica camuflada. É comum em parques urbanos bem conservados. Imagem: Denis Mello

A estaladeira (Hamadryas epinome) emite estalos durante seu vôo e pousa de asas abertas e de cabeça para baixo em troncos de árvores, onde fica camuflada. É comum em parques urbanos bem conservados. Imagem: Denis Mello

     Para que se possa acompanhar estas populações, o primeiro passo é saber quais são as espécies presentes, em que lugares específicos elas podem ser encontradas dentro da área que será estudada (mais úmidos, mais ensolarados, florestas mais preservadas ou áreas ajardinadas, por exemplo). É necessário também saber, no momento do início do estudo, a situação de cada espécie, quais delas são mais comuns e abundantes, e como variam no decorrer dos meses.
A borboleta conhecida como olho-de-pavão (Junonia evarete) é facilmente encontrada em áreas e campos abertos, voando rapidamente e baixo. Gosta de pequenas flores silvestres como as flores da serralhinha. Pousa de asas abertas sobre pedras, grama ou até mesmo no chão. Imagem: Denis Mello

A borboleta conhecida como olho-de-pavão (Junonia evarete) é facilmente encontrada em áreas e campos abertos, voando rapidamente e baixo. Gosta de pequenas flores silvestres como as flores da serralhinha. Pousa de asas abertas sobre pedras, grama ou até mesmo no chão. Imagem: Denis Mello

     Além de permitir acompanhar as modificações no ambiente ao longo do tempo em uma área, como por exemplo um parque ou praça no meio de uma cidade, o estudo das borboletas em áreas urbanas tem uma outra dimensão muito importante: são insetos que atraem a atenção das pessoas por sua beleza e colorido, tendo por isso um enorme potencial para pesquisas envolvendo a colaboração entre amadores e cientistas. Pelas mesmas razões, são também um excelente grupo de animais para uso em atividades que promovam o contato das pessoas com a natureza.
A borboleta-asa-de-vidro (Mcclungia cymo salonina) é encontrada em áreas sombreadas da mata, e nas épocas mais secas do ano se agrupam no interior da floresta juntamente com outras espécies de borboletas, em um fenômeno conhecido como “bolsões”. Alimenta-se de néctar de plantas. Imagem: Denis Mello

A borboleta-asa-de-vidro (Mcclungia cymo salonina) é encontrada em áreas sombreadas da mata, e nas épocas mais secas do ano se agrupam no interior da floresta juntamente com outras espécies de borboletas, em um fenômeno conhecido como “bolsões”. Alimenta-se de néctar de plantas. Imagem: Denis Mello

     Os parques e áreas verdes são não só importantes para a manutenção da biodiversidade, e como áreas a serem estudadas e monitoradas para acompanhar a saúde do ambiente, mas também locais que podem ser usados para promover o contato das pessoas com o meio ambiente. Com o aumento da proporção de habitants nas cidades no mundo inteiro, os ecossistemas urbanos tornam-se, na visão das pessoas, modelos de ecossistemas naturais, sensibilizando-as para questões relacionadas ao meio ambiente e conservação. Os serem humanos em geral e particularmente as novas gerações, vem acentuando comportamentos baseados no mundo digital que as desconectam cada vez mais da natureza, considerados possiveis causas de patologias relacionadas ao termo “disfunção de deficiência de natureza” (DDN). Muitos estudos demonstram que a exposição à natureza e a conexão com o mundo natural estão relacionados ao bem-estar humano, resultando em atitudes positivas com relação à vida silvestre e biodiversidade, com efeitos neurofisiológicos positivos.
A borboleta Epityches eupompe, um itomíneo do grupo das espécies caramelo, tem asas semi-transparentes. No Butantan é comum em plantas como a fruta-do-sabiá (Acnistus arborescens), e ainda na borda da mata e em áreas úmidas. Imagem: Denis Mello

A borboleta Epityches eupompe, um itomíneo do grupo das espécies caramelo, tem asas semi-transparentes. No Butantan é comum em plantas como a fruta-do-sabiá (Acnistus arborescens), e ainda na borda da mata e em áreas úmidas. Imagem: Denis Mello

     Diante desse problema, as áreas verdes em meio às cidades podem ser vistas como locais ideais para promover a (re) conexão entre o público e o mundo natural, representado pelos animais e plantas. O parque do Instituto Butantan é uma destas áreas, com seus 80 hectares situados na Zona Oeste da cidade de São Paulo, e que juntamente com a vizinha Universidade de São Paulo forma a segunda maior área verde do município. O parque é dividido em floresta atlântica secundária, trechos de vegetação exótica e áreas de jardim, e visitado mensalmente por um total de cerca de 15.000 pessoas. É também uma área que abriga um grande número de plantas e animais, com destaque para as borboletas: este grupo carismático de insetos é facilmente avistado em todas as áreas do parque, o ano inteiro.
A borboleta-anelzinho (Hermeuptychia atalanta) é comum em áreas perturbadas, florestas abertas e campos, e uma das espécies mais abundantes no parque do Butantan. Imagem: Denis Mello

A borboleta-anelzinho (Hermeuptychia atalanta) é comum em áreas perturbadas, florestas abertas e campos, e uma das espécies mais abundantes no parque do Butantan. Imagem: Denis Mello

     O projeto “Borboletas do Butantan” tem dois objetivos principais: entender a situação atual e a variação temporal na riqueza e abundância das espécies de borboletas no parque, para detector mudanças relacionadas a fatores externos, e elaborar material e ações educativas para serem oferecidos ao público, promovendo sua conexão com a natureza através do conhecimento e contato com as borboletas.
Muito bonita, a Pareuptychia ocirrhoe interjecta é uma espécie solitária que pode ser vista, no Butantan, sobretudo em áreas abertas como bordas de floresta e ao longo de caminhos iluminados e ensolarados. Imagem: Denis Mello

Muito bonita, a Pareuptychia ocirrhoe interjecta é uma espécie solitária que pode ser vista, no Butantan, sobretudo em áreas abertas como bordas de floresta e ao longo de caminhos iluminados e ensolarados. Imagem: Denis Mello