Ciência Cidadã

O que é a ciência cidadã ou ciência participativa
     A ciência cidadã, ou ciência participativa é uma forma de aproximar a sociedade e a ciência, através da participação de pessoas que não são cientistas durante a coleta e análise dos dados de que os pesquisadores precisam. Se por um lado, a participação do público amplia muito a capacidade dos pesquisadores de obter e analisar dados, por outro a atuação neste processo aproxima a sociedade e a ciência, tendo como aspectos positivos o estímulo à alfabetização científica e a valorização da ciência e das institutições científicas. Cada vez mais comum em várias áreas do conhecimento, essa forma de fazer ciência, não “pelo pesquisador e para a sociedade” mas “pelo pesquisador em colaboração com a sociedade”, tem se intensificado em grande parte através do uso das redes sociais e da internet.
Participação nos projetos
     Normalmente, a participação dos cientistas cidadãos em projetos deste tipo se dá através da coleta de dados ou de seu processamento (identificação de fotos, classificação de formas de animais ou moléculas, por exemplo). Também é comum que sejam propostos projetos ligados ao currículo escolar, quando o professor propõe o envolvimento dos alunos em projetos de ciências, e ainda em projetos de ciência comunitária, desenvolvidos em bairros ou por associações de moradores para resolver questões pontuais relacionadas, por exemplo, à política ou à gestão de áreas naturais.
Benefícios para a ciência, para a sociedade e para o meio ambiente
     O benefício que a participação da sociedade traz para a ciência é bastante claro. No entanto, também há diversos aspectos positivos para a sociedade: as pessoas entendem melhor os processos que levam àconstrução do conhecimento científico, tem uma atitude mais positiva com relação à ciência, e compartilham este conhecimento, que fica disponível para todos.
     A ciência cidadã também traz aspectos positivos para o meio ambiente: a participação em projetos relacionados à natureza sensibiliza as pessoas para aspectos relacionados à conservação, através do conhecimento e da sensação de que todos somos responsáveis pelo ambiente em que vivemos. Também traz para a sociedade a possibilidades de aumentar seu conhecimento sobre as diferentes espécies que compartilham o planeta, e os dados gerados servem ainda como base para a tomada de decisões sobre aspectos ligados à preservação.
As aves e a ciência cidadã
     As aves são um objeto de estudo bastante explorado em projetos que buscam juntar o esforço de um grande número de amadores, especialmente observadores de aves, para coletar uma quantidade incrível de dados. Algumas características deste grupo de animais, como os hábitos diurnos, a coloração e a facilidade de observação, bem com a tradição de se observar aves em vários países, e que vem crescendo cada vez mais no Brasil, facilitam a coleta de dados por não-especialistas.
Crianças contando aves no parque do Instituto Butantan, em 2016. Foto: Camilla Carvalho

Crianças contando aves no parque do Instituto Butantan, em 2016. Foto: Camilla Carvalho

     Embora normalmente analisados e publicados por pesquisadores, estes dados estão disponíveis para todos na internet. O Laboratório de Ornitologia de Cornell reúne muitas das iniciativas pioneiras deste tipo, como o eBird, um portal e um aplicativo que permitem que o usuário envie listas de espécies de aves de cada localidade que visita, e o projeto de observação de comedouros (project feederwatch) no qual as pessoas contam as aves que visitam diariamente os comedouros instalados em seus jardins. Esses dois projetos tem resultado em dados utilizados para trabalhos científicos de grande importâancia para a conservação das aves.
     No Brasil temos o pioneiro Wikiaves, portal que recebe as fotos de observadores do Brasil inteiro, com informações sobre a localidade, data e hora, e a identificação das aves. Já foram enviadas para este portal quase dois milhões de imagens de aves, cobrindo todo o nosso país, e esses dados também representam um conjunto de informações muito importantes para a conservação.
Mapa do Wikiaves em 2016 representando todas as imagens de aves já enviadas para o portal desde a sua criação, em 2008, e estatísticas de informações armazenadas, como número de imagens, usuários e espécies.

Mapa do Wikiaves em 2016 representando todas as imagens de aves já enviadas para o portal desde a sua criação, em 2008, e estatísticas de informações armazenadas, como número de imagens, usuários e espécies.

     Além disso, através da análise destes dados é possível ter uma idéia melhor da distribuição das espécies de aves que ocorrem no Brasil, e dos movimentos que cada população realiza ao longo do ano, aumentando assim nosso conhecimento sobre a biologia das espécies dos Neotrópicos.
Primeiras iniciativas de ciência cidadã: a Contagem de Aves de Natal
     Apesar de sua forte ligação com a internet, que facilita grandemente a criação de redes colaborativas, a ciência cidadã teve suas iniciativas pioneiras já no início do século XX. Em 1900, a diminuição alarmante do número de aves causado tanto pela moda de se utilizar penas e aves empalhadas nos chapéus das senhoras elegantes, quanto pelo costume de se sair na época do Natal para caçar aves, já chamava a atenção dos ornitólogos e dos observadores de aves.
No final do século 19 e início do século 20 era comum que as senhoras elegantes utilizassem penas de aves, e algumas vezes as próprias aves empalhadas, para enfeitar chapéus e vestimentas.

No final do século 19 e início do século 20 era comum que as senhoras elegantes utilizassem penas de aves, e algumas vezes as próprias aves empalhadas, para enfeitar chapéus e vestimentas.

     Frank Chapman, eminente ornitólogo do Museu de História Natual de Nova Iorque, teve a idéia de propor e divulgar para o público norte americano, começando por aqueles que se indignavam com o uso das aves nas vestimentas femininas, que as pessoas passassem a contar as aves durante a época do natal, em vez de matá-las.
Frank Chapman, ornitólogo do Museu de História Natural de Nova Iorque, que teve a idéia de propor a contagem de aves na época do Natal. Foto retirada do livro My Tropical Air Castle, de Frank Chapman, 1929, D. Appleton and Company.

Frank Chapman, ornitólogo do Museu de História Natural de Nova Iorque, que teve a idéia de propor a contagem de aves na época do Natal. Foto retirada do livro My Tropical Air Castle, de Frank Chapman, 1929, D. Appleton and Company.

     Desta forma, seria possível perceber, ao longo dos anos, as variações nas populações das aves, ao mesmo tempo em que diminuía o número de aves caçadas e se promovia a conscientização sobre as consequências de se utilizar as aves e suas penas na moda. A contagem de aves de Natal, ou Christmas Bird Count, tem cada vez mais participantes nos Estados Unidos e no mundo, sendo considerada pela Audubon Society, promotora do evento, o projeto de ciência cidadã mais longo da nação, com 117 anos de dados coletados .
     Na mesma época em que Frank Chapman iniciou o envolvimento do público na coleta de dados, no Brasil dois importantes cientistas também contavam com a participação do público na coleta de dados em larga escala, em projetos científicos institucionais, ao mesmo tempo em que se preocuparam em manter uma estreita a comunicação com a sociedade. Foram eles o médico Vital Brazil e o botânico Frederico Carlos Hoehne, ambos do Instituto Butantan.
Entre 1900 e 2010, cerca de 1.900.000 cobras, em sua maioria venenosas, foram enviadas ou entregues ao Instituto Butantan por pessoas comuns, com informação detalhada sobre local e data de coleta. As cobras e os dados coletados foram amplamente utilizados por pesquisadores em seus trabalhos científicos.

Entre 1900 e 2010, cerca de 1.900.000 cobras, em sua maioria venenosas, foram enviadas ou entregues ao Instituto Butantan por pessoas comuns, com informação detalhada sobre local e data de coleta. As cobras e os dados coletados foram amplamente utilizados por pesquisadores em seus trabalhos científicos.

Vital Brazil
     No início do século XX, o medico Vital Brazil, primeiro diretor do Instituto Butantan, buscava soluções para o tratamento das picadas de cobras, então um grande problema de saúde pública. Ao estabelecer formas de receber exemplares de serpentes coletadas por terceiros, utilizando seus dados e os espécimes para suas pesquisas, e ao mesmo tempo oferecer ao público ações de esclarecimento sobre acidentes com serpentes e ampolas de soro, Vital Brazil não apenas conseguiu um número imenso de exemplares para suas pesquisas sobre o soro antiofídico, mas também formou a base da coleção de serpentes do Butantan e estabeleceu uma relação com a sociedade que permanece até a atualidade.
Vital Brazil, primeiro diretor do Instituto Butantan, estabeleceu uma forma de receber cobras coletadas por terceiros, juntamente com as informações destes exemplares, que utilizava em suas pesquisas. Em troca fornecia soro anti-ofídico e palestras e atividades de divulgação sobre serpentes, juntamente com sua equipe.

Vital Brazil, primeiro diretor do Instituto Butantan, estabeleceu uma forma de receber cobras coletadas por terceiros, juntamente com as informações destes exemplares, que utilizava em suas pesquisas. Em troca fornecia soro anti-ofídico e palestras e atividades de divulgação sobre serpentes, juntamente com sua equipe.

Frederico Carlos Hoehne
     Entre os anos de 1917 e 1925 o Instituto Butantan abrigou uma Seção de Botânica, voltada para o estudo de plantas medicinais. Apaixonado por orquídeas, participante ativo de expedições de coleta lideradas pelo General Rondon, e considerado um dos primeiros conservacionistas brasilieiros, Frederico Carlos Hoehne esteve à frente da Seção de Botânica, criando o Horto Oswaldo Cruz. Sua comunicação com o público tinha como objetivo que os visitantes do instituto trouxessem plantas consideradas medicinais, informando o pesquisador sobre os propósitos para os quais eram utilizadas. Hoehne escrevia sobre arborização urbana, plantas medicinais e conservação em jornais como o Estado de São Paulo e revistas de divulgação. Publicou ainda livros infantis sobre temas relacionados à natureza, à vida nas florestas e à importância e beleza da biodiversidade. Uma de suas mais importantes e contribuições para a sociedade foi a criação do Jardim Botânico de São Paulo.
Frederico Carlos Hoehne chefiava a Seção de Botânica do Museu Paulista, no Instituto Butantan, e recebia plantas medicinais trazidas pelos visitantes, para que pudesse estudar seus princípios ativos.

Frederico Carlos Hoehne chefiava a Seção de Botânica do Museu Paulista, no Instituto Butantan, e recebia plantas medicinais trazidas pelos visitantes, para que pudesse estudar seus princípios ativos.

     A relação entre o Instituto Butantan e a ciência cidadã data portanto de mais de 100 anos, e se mantém através das forte comunicação com o público, notável até o presente, e atividades desenvolvidas com a colaboração de seus visitantes. Exemplos são os projetos de serpentes de Guapiruvu e aqueles desenvolvidos pelo Observatório de Aves – Instituto Butantan em colaboração com a SAVE Brasil, o Sistema Ambiental Paulista e o Avistar.