Origem e Evolução

     Anos de exploração predatória reduziram a Mata Atlântica a remanescentes isolados que, somados, atingem apenas entre 8,5% e 12% de sua extensão original. Embora o ritmo de devastação deste domínio tenha sido reduzido nos últimos anos, isso não significa segurança para a biodiversidade, considerando-se o alto grau de fragmentação e o intervalo de tempo entre o impacto exercido sobre as populações e os resultados sobre a sua sobrevivência. O cenário atual é agravado por lacunas de conhecimento sobre a biodiversidade passada e presente, sua distribuição e mesmo aspectos básicos de história natural.
     Outro grave problema para a conservação das espécies da Mata Atlântica é o desconhecimento da sociedade em geral sobre as espécies ameaçadas e sobre as reais consequências que sua extinção representa. Supreendentemente, a falta de envolvimento da sociedade com os problemas de conservação da Mata Atlântica parece ser em grande parte atribuível a uma falta de habilidade dos conservacionistas e pesquisadores em comunicar- se com o público, e não da falta interesse do mesmo pelo tema.
     Entre os diversos fatores que tornam a sociedade em geral disposta a investir na conservação de espécies, acima de considerações econômicas, destaca-se a quantidade de conhecimento disponível sobre elas. A pesquisa científica e a divulgação de seus resultados tem um papel decisivo como um modificador das atitudes humanas relacionadas à biodiversidade, alimentando a curiosidade do público, e determinando a importância e o grau de prioridade de sua conservação, preservação de seu habitat ou área de distribuição, manutenção de populações viáveis, e criação de reservas, superando assim as considerações de ordem exclusivamente pragmática.
     Ainda assim, poucas são as iniciativas no Brasil de envolver a população em atividades relacionadas à pesquisa científica, especialmente no que diz respeito à zoologia em seus aspectos de conhecimento e descrição de novas espécies. Estratégias como a ciência cidadã ou participativa, que pode ser definida como um processo de participação da comunidade na coleta e análise de dados científicos, reforçando o time dos cientistas, vem se afirmando como uma das formas de envolver o público e, indiretamente, sensibilizar as pessoas para questões relevantes de conservação.
     Assim começou o projeto envolvendo a comunidade de Guapiruvu, em Sete Barras, Vale do Ribeira. A região, que abriga um dos maiores trechos remanescentes da Mata Atlântica e contém uma das maiores riquezas de espécies do planeta, tem como base econômica a agricultura, e é também o único local onde é encontrada uma das serpentes mais raras e misteriosas do mundo, a jibóia-de-Cropan, Corallus cropanii.
Município de Sete Barras, Vale do Ribeira

Município de Sete Barras, Vale do Ribeira

     Esta espécie de jibóia é conhecida através de apenas cinco indivíduos, todos eles da região do Vale do Ribeira.
     Em 2014, pesquisadores do Instituto Butantan e da Universidade de São Paulo iniciaram novas tentativas de registrar e conhecer mais sobre esta e outras espécies de serpentes do Vale do Ribeira, realizando expedições mensais de coleta com o objetivo de conhecer melhor a fauna de répteis e anfíbios da região e encontrar a jibóia-de-Cropan.
Momento de difusão cientifica e educação ambiental na comunidade de Guapiruvu

Momento de difusão cientifica e educação ambiental na comunidade de Guapiruvu

     Ao mesmo tempo, e identificando a comunidade local como um conjunto de parceiros importantes na busca desta espécie rara e ameaçada, o Instituto Butantan, apoiado pela Universidade de Cornell e com o financiamento da Fapesp e da Rufford Foundation, desenvolveu um projeto de parceria com a comunidade, onde foram realizadas ações educativas, pensadas especialmente para as crianças e jovens da região, visando mostrar a importância ecológica das serpentes e desmistificar estes animais como “necessariamente ruins”(Apostila disponível no menu “Outros Recursos”). Ainda, entrevistas com moradores de diversas idades foram realizadas com o intuito de compreender melhor as relações entre pessoas e serpentes numa região onde o encontro com estes animais é bastante comum. Os esforços de estreitamento de relações para/com a comunidade deram resultado: pouco mais de um ano após o fim das atividades educativas, os moradores locais encontraram um novo espécime de Corallus cropanii que encontra-se atualmente em estudo pela equipe do Museu de Zoologia da USP, demonstrando que a espécie ainda ocorre na região.
     O sucesso em redescobrir a espécie com a ajuda da comunidade ressalta a importância de se prever, em projetos que pretendem contribuir com ações de conservação, uma vertente robusta e efetiva de divulgação científica.